Um monitor para acompanhar a IA na cobertura eleitoral de 2026

labiialab 7 min de leitura

As eleições de 2026 chegam com a inteligência artificial no centro da disputa pública. Resoluções do TSE sobre propaganda, vídeos falsos de candidatos circulando em grupos de WhatsApp, chatbots respondendo perguntas políticas, agências de checagem tentando acompanhar o volume… A imprensa cobre tudo isso todos os dias, em dezenas de veículos, e a própria quantidade de material publicado nos dificulta enxergar o tamanho da cobertura. O Monitor de Notícias – IA e Eleições, projeto do <labiia_lab> no Eixo Política e Sociedade, foi construído para dar forma a esse acervo enquanto ele se acumula.

O que o monitor faz?

O sistema consulta os feeds RSS do Google Notícias duas vezes ao dia, realizando uma busca para cada palavra-chave. Cada matéria coletada passa por uma triagem que descarta publicações anteriores a 2026, fontes fora do escopo nacional e links repetidos. O que sobrevive à triagem é classificado por regras léxicas, gravado num CSV versionado no repositório e lido por um painel que monta gráficos e filtros direto no navegador para o usuário. Esse cuidado foi tomado porque a qualidade do painel depende da qualidade do que entra. Se o acervo se enchesse de notícia velha ou de repetição, qualquer leitura dos números ficaria distorcida.

Toda a operação roda na infraestrutura gratuita do GitHub, sem servidor próprio. O GitHub Actions dispara o coletor a cada doze horas e o GitHub Pages publica a versão nova do painel a cada alteração no acervo. A cada execução o coletor também revisa o corpus antigo, reclassificando matérias que ainda não tenham as colunas atuais e reaplicando os filtros de triagem, de forma que o histórico acompanhe a versão vigente do classificador.

De onde vêm as notícias?

O ponto de partida é o Google Notícias. Em vez de visitar site por site de jornal, o que esbarraria em paywalls e bloqueios e complicaria nosso trabalho (além de barrar citações), o monitor usa os feeds do serviço, que reúnem matérias de centenas de veículos ao mesmo tempo. A busca não é uma só, ela se divide em sete recortes temáticos, cada um com seu próprio conjunto de palavras-chave.

Recortes temáticos e seus componentes:

RecorteO que procura?
Regulação e TSEresoluções, propaganda eleitoral, justiça eleitoral
Deepfakes e conteúdo sintéticovídeos e áudios falsos, conteúdo sintético
Desinformação e checagemfake news, desinformação eleitoral, agências de checagem
Plataformas e chatbotsChatGPT, Gemini, Grok, redes sociais, IA generativa em campanha
Campanhas e candidatosmarketing eleitoral, segmentação de eleitores
Integridade e democraciaurnas, manipulação eleitoral, confiança no voto
Violência política de gênerodeepfakes sexuais, imagens falsas, ataques a candidatas


Como cada notícia é classificada?

Depois da triagem vem a parte que dá sentido ao acervo: a classificação, a partir da qual o monitor lê o título de cada matéria e marca cinco dimensões de análise:

Dimensões de análise para a classificação:

DimensãoO que registraExemplos de categorias
Mecanismo de IAo tipo de tecnologia que aparece na notíciadeepfake, chatbot, microtargeting, bots, copywriting, recomendação, auditoria
Modelo de linguagema ferramenta citada pelo nomeChatGPT, Gemini, Claude, Grok, Perplexity, DeepSeek, Llama, Mistral, Copilot
Plataformaonde a história aconteceWhatsApp, Telegram, TikTok, X, Meta, YouTube, Kwai, IA nativa
Agente principalquem protagoniza a matériaEstado, plataforma, campanha, sociedade civil, cidadão, agente estrangeiro
Valência narrativao enquadramento dominante do textoregulação, caso concreto, alerta, análise, ceticismo, otimismo


Além dessas cinco marcações, cada matéria recebe um “grau de vínculo com IA”, que pode ser forte ou fraco. Esse rótulo mede o quanto o título deixa claro que a notícia trata mesmo de inteligência artificial. Uma matéria que cita “deepfake” ou nomeia um modelo tem vínculo forte. Outra que apareceu na busca por tangência, mas cujo título não evidencia a relação, fica marcada como fraca. O painel mostra apenas as de vínculo forte, o que mantém a visualização limpa e fiel ao objeto da pesquisa. O recorte de violência política de gênero tem uma regra extra, mais exigente: a matéria só é aceita quando o título reúne ao mesmo tempo um termo ligado a IA e um termo ligado a gênero, para garantir que o episódio realmente cruze os dois temas.

Porém, vale ressaltar que, como o feed entrega só o título, e não o corpo da matéria, o sistema marca apenas o que está escrito de forma explícita. Ele prefere deixar de marcar uma coisa duvidosa a inventar uma associação que o título não sustenta. Essa escolha favorece a precisão do nosso monitor e o número que aparece no painel tende a ser confiável justamente porque o classificador não força interpretações sobre um texto curto.


O painel


A visualização segue a identidade do laboratório, com IBM Plex Sans, JetBrains Mono e o índigo da marca. Os filtros por recorte, dimensão, fonte e busca textual se combinam entre si. O volume semanal aparece em barras clicáveis que também filtram o período. Um mapa de calor permite cruzar quaisquer duas dimensões, e a lista de matérias traz link para a fonte original com etiquetas de recorte, modelo e mecanismo. No celular os filtros ficam recolhidos num painel retrátil.


Por que isso importa agora?


O debate brasileiro sobre IA e eleições anda em grande parte por anedotas. Cada novo caso de vídeo falso aparece isolado, como se fosse o primeiro, e a discussão sobre regulação avança sem uma base que mostre o que a imprensa vem efetivamente cobrindo, com que ênfase e desde quando, perguntas essenciais para o debate em torno da IA e sua importância para as eleições de 2026 no Brasil.

Por isso, a existência de um acervo contínuo, datado e classificado, permite outro tipo de pergunta. Podemos verificar, por exemplo, se a cobertura se concentra em regulação ou em casos concretos; quais plataformas aparecem associadas a quais mecanismos; se o tom predominante é de alerta ou de análise; quais agentes são retratados como responsáveis; se os ataques a candidatas por meio de imagens falsas encontram espaço no noticiário ou passam despercebidos… 

Há também um argumento sobre enquadramento, pois o que a imprensa nomeia como risco moldará, no futuro, o que reguladores, partidos e eleitores passarão a tratar como risco. Acompanhar a cobertura em série temporal é uma forma de observar a incipiente construção pública do imaginário acerca da IA e seus atravessamentos na política.


Referências e créditos

O monitor foi produzido por Larissa Diniz Aguiar, Mestre em Ciência Política pela UFMG, especialista em Estatística, Ciência de Dados e Big Data, pesquisadora do <labiia_lab> (Laboratório Interdisciplinar de Inteligência Artificial para Métodos, Democracia e Sociedade) e Professora Substituta da PUC Minas. O trabalho foi desenvolvido no âmbito do Eixo Política e Sociedade do laboratório, e abrange o desenho metodológico, o coletor em Python, o classificador léxico e o painel. O repositório fica hospedado na organização do <labiia_lab>, em github.com/labiia-lab

O código e o acervo estão sob licença Creative Commons Atribuição-NãoComercial 4.0. Assim, qualquer pessoa pode copiar, adaptar e redistribuir o material, com atribuição de autoria e sem uso comercial. O CSV é o mesmo arquivo que alimenta o painel, então quem quiser rodar as próprias análises parte exatamente dos dados que estão na tela. Manter o código e o acervo abertos sob licença Creative Commons acompanha a proposta do <labiia_lab> de produzir ferramentas que outras pessoas possam auditar, adaptar e usar em suas próprias perguntas de pesquisa.

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