Educação à moda GPT
O artigo, que tem como participante a integrante do <labiia_lab> Mirella Silva Barbosa, analisa, à luz da Análise do Discurso de linha francesa (Michel Pêcheux), o debate público sobre o uso de Inteligências Artificiais Generativas (como o ChatGPT) na produção de aulas digitais para a rede pública de ensino de São Paulo, anunciado pela mídia brasileira em abril de 2024. O foco é a noção de “forma-sujeito” — o sujeito idealizado dentro de uma Formação Discursiva (FD), moldado por ideologias e discursos dominantes — e como diferentes atores assumem posições de identificação (“bom sujeito”) ou contra-identificação (“mau sujeito”) diante da proposta.
Referencial teórico e metodologia
O estudo se ancora em Pêcheux (1988, 1990) e Orlandi (2012), trabalhando conceitos como Formação Discursiva, interdiscurso/intradiscurso, interpelação ideológica e as três modalidades de tomada de posição do sujeito (identificação, contra-identificação e desidentificação). O corpus é formado por quatro notícias/textos publicados em portais distintos, selecionados por representarem posições-sujeito diferentes (o governador, o secretário de Educação, uma professora sindicalista e a CNTE) e por critérios de engajamento, data e aderência ao tema. A análise observa as escolhas lexicais e as condições de produção de cada discurso.
Principais pontos (análise das quatro notícias)
- Notícia 1 – Governador Tarcísio de Freitas (g1): classificado como “bom sujeito”, alinhado à FD dominante. As escolhas lexicais “aprimorar”, “atualização” e “enriqueçam” sugerem que o material feito pelos professores seria insuficiente, justificando o uso da IA. Os autores criticam a fala de que a ferramenta é apenas um “facilitador”, argumentando que ela pode aumentar a carga do professor (revisar conteúdo possivelmente cheio de erros) e que o governo terceiriza a responsabilidade ao docente.
- Notícia 2 – Secretário Renato Feder (Estadão): inicialmente apresentado como “bom sujeito” ao afirmar que a autonomia do professor seria preservada. Porém, ao dizer “o professor vai usar o ChatGPT se quiser”, desloca-se para a contra-identificação (“mau sujeito”), tentando amenizar as críticas. Os autores apontam contradição: a decisão de mudar o papel do professor (de produtor para revisor) já estaria tomada, e esse deslocamento revela um conflito discursivo entre as próprias autoridades governamentais.
- Notícia 3 – Professora Francisca Rocha (Rádio Peão Brasil): posição de “mau sujeito”/contra-identificação, falando do lugar social da sala de aula e do sindicato (Apeoesp, CNTE, CTB-SP). Critica a substituição de humanos por máquinas na educação pública, os erros do material digital, e levanta o conflito de interesses do secretário Feder (acionista da Dragon Gem LLC, ligada à Multilaser), defendendo investimento em professores, infraestrutura e salários.
- Notícia 4 – Nota pública da CNTE: contra-identificação ainda mais enfática (“decisão estapafúrdia e de desrespeito”). Retoma a polêmica de 2023 sobre a tentativa de recusar os livros do PNLD, denuncia interesses “mercantilistas e privatistas” e a “mercantilização da educação pública”, e exige a revogação da medida, afirmando que nada substitui os saberes humanos.
Conclusão
A análise identifica duas posições-sujeito centrais: o “bom sujeito” (governador e secretário), que se alinha às normas e valores dominantes e reforça a hegemonia da FD do governo; e o “mau sujeito” (professora e CNTE), que se contra-identifica, questiona e resiste ao discurso dominante, oferecendo perspectiva crítica capaz de gerar rupturas. Os autores concluem que houve um conflito discursivo entre as próprias autoridades governamentais, evidenciando como posições-sujeito opostas podem coexistir e gerar tensões dentro do mesmo contexto sociopolítico. Reforçam, com base em Pêcheux, que o deslocamento de uma posição/FD para outra nunca implica o “desassujeitamento” do sujeito — os sentidos não desaparecem, e o lugar do sujeito é sempre preenchido pelas valorações reveladas em suas escolhas lexicais.
