Uma revisão de escopo assistida por inteligência artificial (IA) sobre usos emergentes de ia na pesquisa qualitativa e suas considerações éticas

Rafael Cardoso Sampaio, Viktor Chagas, Cristiane Sinimbu Sanchez, Júlia Gonçalves, Tiago Borges, Murilo Brum Alison, Camila Schiavon Tigrinho, Josiane Ribeiro de Souza e Felipe Schwarzer Paz · 2024

O artigo, que tem como um dos participantes o fundador do <labiia_lab> Rafael Sampaio, realiza uma revisão de escopo da literatura acadêmica sobre o uso de inteligência artificial baseada em grandes modelos de linguagem (LLMs) para apoiar a pesquisa qualitativa, além de discutir as questões éticas envolvidas. Foram analisados 31 artigos publicados entre 2018 e 2023, indexados na SCOPUS e Web of Science e presentes em repositórios de preprints. Como diferencial metodológico, os autores também fizeram uma experimentação usando a ferramenta ChatPDF para auxiliar na própria revisão, sempre com decisão final humana.

Principais pontos

Quanto aos usos das ferramentas de IA, os mais consolidados foram a geração de códigos para análise (70,9% dos textos) e a produção de resumos/sumários (67,7%). Usos menos frequentes incluíram validação de análise (41,9%), análise dialógica/dedutiva e extração e tratamento de dados (35,4% cada), geração de temas e análise de sentimentos (25,8% cada). Praticamente não houve uso de IA para recrutamento de participantes, condução de entrevistas ou métodos experimentais.

A ferramenta mais citada foi o ChatGPT (mencionada em 21 artigos), seguida de modelos como o BERT. A maioria dos estudos concentra-se no contexto educacional, e houve crescimento expressivo das publicações em 2023.

Sobre as questões éticas, 25 dos 31 estudos (80,6%) as mencionam. Os autores identificaram três posturas: a normativa (predominante, 58,1%), que prescreve cuidados e comportamentos adequados; a realista (29%), mais descritiva e pragmática; e a futurista (apenas 3,2%), voltada a tendências e agendas. As principais preocupações foram transparência, integridade, vieses e o risco de “alucinações” dos modelos.

Na experimentação com o ChatPDF, a ferramenta respondeu bem aos prompts e foi capaz de encontrar trechos relevantes, mas exigiu calibragem cuidadosa das perguntas e revisão humana, já que ocasionalmente gerou respostas pouco confiáveis.

Conclusão

Os autores concluem que há um crescimento evidente dessa literatura, provavelmente impulsionado pelo lançamento do ChatGPT, com forte ênfase em codificação e extração de sentido de textos. As discussões éticas ainda se concentram num horizonte normativo, o que reflete tanto a novidade do tema quanto a necessidade de mais investigações. Eles defendem que a IA não deve substituir o pesquisador, mas atuar de forma colaborativa (colaboração humano-IA), alertando contra uma adoção acrítica que transforme a IA em “terceirização da análise”. Reforçam que a análise humana permanece, neste momento, insubstituível em todas as fases da pesquisa qualitativa, recomendando o uso de técnicas mistas para minimizar falhas da IA.

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