Produção de Texto com Inteligência Artificial Generativa
O artigo, que tem a participação da integrante do <labiia_lab> Mirella Silva Barbosa, investiga se o ChatGPT consegue (co)criar textos no gênero redação do ENEM, atendendo aos aspectos formais, funcionais e interacionais desse gênero. As autoras escolheram a redação do ENEM por sua relevância nas práticas escolares do Ensino Médio e por ser porta de entrada para as universidades brasileiras. O estudo se ancora nos Estudos Retóricos de Gêneros (Bazerman, Miller), em pesquisas sobre práticas escolares de escrita (Marcuschi, Antunes) e em estudos sobre o ChatGPT (Santaella, Kaufman, Caiado).
Metodologia
Foram elaborados três prompts (chamados “enunciados operatórios”) com níveis crescentes de detalhamento, todos sobre o tema “violência contra a mulher”, gerando os textos T1, T2 e T3:
- T1: prompt simples e direto, pedindo apenas um “texto dissertativo-argumentativo”.
- T2: prompt detalhado, especificando gênero ENEM, número de parágrafos, linhas, proposta de intervenção, terceira pessoa e operadores argumentativos.
- T3: igual ao T2, acrescentando o contexto (aluno do Ensino Médio) e o tipo de repertório a usar (citação de filmes, livros e/ou séries).
Os textos foram avaliados pelas próprias autoras com base nas cinco competências da redação do ENEM, usando os conceitos A (Ótimo) a D (Insuficiente).
Principais pontos
- Os três textos tiveram desempenho ótimo nas competências 1 e 4 (domínio da norma padrão e mecanismos linguísticos/coesão).
- T1 e T2 falharam no repertório sociocultural legitimado, o que enfraqueceu a argumentação — mesmo o T2, que pedia argumentos, não trouxe referências concretas.
- Só o T3 incluiu repertório legitimado (a série Maid e o livro A Cor Púrpura), produzindo argumentação consistente.
- T1 e T2 separaram a proposta de intervenção da conclusão (gerando cinco parágrafos), descumprindo a estrutura esperada; apenas o T3 manteve os quatro parágrafos e colocou a proposta de intervenção na conclusão, atendendo aos cinco elementos exigidos (ação, agente, modo/meio, efeito e detalhamento).
- O ChatGPT tende a gerar teses e conectivos padronizados (“Em primeiro lugar”, “Além disso”), revelando pouca criatividade na construção da tese.
Conclusão
O ChatGPT é capaz de (co)criar textos no gênero redação do ENEM, mas a qualidade depende diretamente de como o prompt é escrito: quanto mais específico e detalhado, mais o texto atende aos aspectos formais e funcionais do gênero. Prompts genéricos resultam em textos que cumprem a norma padrão e a coesão, mas se distanciam da forma, da função social e das expectativas institucionais da redação. Por isso, o estudo reforça que o ChatGPT pode auxiliar nas práticas de produção textual desde que professores e alunos saibam construir enunciados operatórios detalhados e tenham conhecimento sólido sobre o gênero, para avaliar criticamente se o texto gerado corresponde não só à sua natureza linguística e textual, mas também aos aspectos discursivos e sociorretóricos.
