Escrevi um livro sobre IA para quem está tentando entender seu lugar nesse novo mundo

Stephanie Jorge · 2025

Tem muito livro sobre inteligência artificial por aí. De todos os tipos. Uns prometem ensinar a ganhar dinheiro com ChatGPT em trinta dias. Outros anunciam o fim do mundo, com robôs tomando empregos, decisões e, quem sabe, o planeta. Tem os manuais técnicos, cheios de fórmulas e diagramas, escritos para quem já é da área. Tem os de negócios, que ensinam empresas a “implementar IA” como quem instala um software. Tem as biografias dos bilionários do Vale do Silício, contadas como epopeias. E tem os acadêmicos, densos e importantes, mas que raramente chegam a quem está fora da universidade. Quando recebi o convite para escrever o meu, hesitei justamente por isso, com tanta gente escrevendo sobre IA o tempo todo, o que mais haveria para dizer?

A resposta veio numa tarde qualquer, entre uma notícia assustadora e outra, vendo o celular me sugerir um vídeo que eu nem sabia que queria ver. Percebi que o problema não era falta de conteúdo sobre IA. Era falta de conversa. O mundo anda rápido demais, as engrenagens do tempo estão sendo trocadas com tudo em movimento, e a maioria das pessoas está tentando acompanhar sem cair. Em 2020 ainda se discutia se certas tecnologias eram “o futuro”. Cinco anos depois, elas estão no almoço de família, na sala de aula, no exame médico.

Foi dessa inquietação (e de um empurrão) que nasceu o “IAÍ?: a geração sintética e a inteligência artificial”, publicado pela Editora Senac São Paulo. Ele não se encaixa em nenhuma daquelas prateleiras, não é técnico, não é apocalíptico, não promete enriquecer ninguém. É um convite para pensar, com calma, sobre o que significa viver num mundo em que máquinas já tomam decisões que antes eram só nossas.

Explicar sem complicar

A primeira parte do livro é o que chamei de a-bê-cê da IA. O que é IA estreita, o que seria uma IA geral, como funciona o aprendizado de máquina. Tudo com exemplos que qualquer pessoa reconhece, o filtro de spam do e-mail, as recomendações do streaming, o celular que desbloqueia com o seu rosto.

Mas eu não queria só despejar definições. Por isso, em alguns capítulos, escolhi contar histórias. No terceiro, apresento Julia e Ian, dois programadores (e ex-namorados) construindo um assistente que recomenda livros. No meio dos diálogos dos dois, conceitos como prompt, ajuste fino, redes neurais e viés nos dados vão aparecendo naturalmente. Minha aposta é que, quando a história termina, o leitor aprendeu um vocabulário inteiro sem sentir. E deixei um quadro no final do capítulo reunindo os termos, para quem quiser revisar.

A outra história do livro foi a mais difícil de escrever. Gaia nasce em São Caetano do Sul, a cidade com o maior IDH do Brasil. Aisha nasce em Melgaço, no Pará, a cidade com o menor. As duas nascem no mesmo dia. Gaia cresce com escola bilíngue, tablet e ensino adaptativo. Aisha divide um professor com mais de cinquenta colegas e descobre a internet num celular velho do irmão, com dados caros e intermitentes. É ficção, mas construída sobre dados reais. O que eu queria mostrar é que a IA não cria a desigualdade, mas pode aprofundá-la. Até os algoritmos de recomendação tratam as duas meninas de forma diferente, porque aprendem com o histórico de cada uma.

Do trabalho ao meio ambiente

Dali em diante, o livro abre o leque, o poder invisível dos dados, o impacto no trabalho (incluindo profissões que estão surgindo agora), as questões éticas, as leis que tentam regular tudo isso, o transumanismo, a criatividade, o meio ambiente, a educação, a saúde mental. Cada capítulo termina com uma seção chamada “Para refletir”. O nome é literal, deixo perguntas, não respostas prontas. Porque o objetivo do livro nunca foi dizer o que pensar, e sim dar elementos para cada um pensar por conta própria.

A geração sintética

Guardei para o final do livro os conceitos que dão o subtítulo a ele, e que nasceram de um artigo que escrevi com o jornalista e professor Caio Túlio Costa, publicado na Folha de S.Paulo em 2024.

Você provavelmente conhece os termos “nativo analógico” (quem cresceu sem internet) e “nativo digital” (quem já nasceu conectado). O que propomos no artigo, e que aprofundo no livro, é que vem aí uma terceira leva: os nativos algorítmicos. Crianças que não vão apenas usar tecnologia, mas crescer cercadas por sistemas que aprendem com seus comportamentos, antecipam seus desejos e moldam suas decisões. Desde o berço, literalmente, já existem aplicativos que monitoram o choro do bebê e ajustam o som e a luz do quarto.

Dessa convivência nasce o que chamamos de geração sintética. Sintética não porque essas pessoas sejam artificiais, mas porque viverão entrelaçadas com o que é produzido artificialmente. E daí vem o terceiro conceito, meio provocação, meio neologismo, o Homo aineticus, esse ser humano que pensa com ajuda da máquina e se redefine na relação com ela.

Um ponto de partida

Escrever este livro foi conviver com um paradoxo, a cada capítulo finalizado, algo novo surgia. Uma ferramenta, uma notícia, uma reviravolta. Por isso ele não pretende, nem de longe, ser definitivo. Não é um mapa fechado, é um ponto de partida.

O mais importante é que você não pare por aqui. Que continue se informando, questionando, conversando. A inteligência artificial é parte dessa história, mas o centro dela ainda somos nós. Ou, pelo menos, acho que podemos ser.

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